22.5.07

cachorro_1

fala-se volta e meia que os cachorros, animais domésticos, são tratados cada vez mais como crianças. bábá, neurose, depressão, homossexualismo, stresse, sindrome do pânico, tudo isso cachorro hoje tem. cachorro é gente. para além dos fatos de consumo, que colocam os cachorros e, principalmente seus donos na crista da onda, pergunto:
- quando o cachorro surgiu? quando as raças apareceram? cachorro era selvagem e, com a urbanização, foi se domesticando?
o cachorro é tratado como criança, sim, e isso, além de significar os mimos, parece apontar para outros fatores.
o primeiro deles é o poder. há uma relação de forte dependência entre o cachorro e o seu dono. como o argumento comum, cachorro não é como gato que sai pela janela, dá seus passeios, come quem quiser e volta uma semana depois. O cachorro não sai, se o seu dono não sair. Ele não come, se o seu dono não lhe der comida. Ele não faz xixi, se o seu dono não o mandar [no caso daqueles adestrados: os meus dois só fazem xixi e coco na rua, ou seja, no momento em que eu, seu dono, escolho como adequado para levá-los à rua]. Ele não faz sexo, se o seu dono não lhe arrumar um[a] parceiro[a]. O cachorro fica em casa, seu único e possível território, sempre à espera do dono. Cachorro não lê, não ouve música, não vê tv, não sabe cozinhar, não sabe fazer passar o tempo, não sabe distrair. Ele sabe esperar o seu dono chegar.
o segundo deles é a comunicação. O cachorro adestrado é aquele que sabe realizar determinadas tarefas de acordo com o signo [verbal ou gestual] do seu dono. Os cachorros não-adestrados, nem isso. cachorro não fala, late. Desse modo, se eu perguntar para o meu cachorro: tá passando bem? tá feliz?, ele não irá me responder. Assim, devo então responder por ele. Interpretar seu balançar do rabo, seu andar, seu olhar, enfim, para cada momento o cachorro está com um estado de espírito diferente. Como então eu decido quando ele faz xixi ou come, posso também decidir sobre o seu ânimo. Parece então que, assim como o poeta romântico e os fenômenos naturais entram em acordo quanto aos seus estados naturais [trizteza, forte tempestade; alegria, sol eterno, dia lindo!], o cachorro e o seu dono também partilham os mesmos estados de espirito. Cachorro não discorda.
O cachorro é o eterno bêbê. no sentido mais egoísta, daquela mãe que vê a criança como um espelho melhorado a ser guardado eternamente em uma valise com as suas iniciais.

continuando...

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